Eco Camping Process of concrete (from the latin con+cretus, to grow together) instead of the perfect World of the project. - - - - Pêra, Almada 2014 - 2016 Plan Containers Domes Platform Composting toilet (Pompidou throne) Kitchen Nest Water spot Boiler house (Gollum) Grey Waters Treatment Chicken house (Palomar house) High tension swing Tent in canes Road |
The systematic collection of information about the building processes led to the organization of the following documents in a set of actions of architecture.
- - - - Practical component of the doctoral programme Architecture and Autonomy - Experimentation in Periurbanity. Tapada da Tojeira Juin / September 2013. Understanding the water cycle
Understanding the water cycle
No dia de hoje, apenas a arquitectura perene não foi arrastada pelas águas. O dia em que tal acontecer não será um dia de catástrofe diluviana. Será o dia de toda a naturalidade, pois tudo é feito de água e com ela iremos.
Choosing the place
A evaporação da água que se encontra na superfície dos lagos, rios e oceanos mas também dos solos, das árvores e da pele dos animais que ascende às nuvens onde sublima todo o clima da atmosfera em soberbos cirros, cúmulos, nimbos e estratos carregando-se de electricidade de pólos opostos girando em altas e baixas pressões, tufões, tornados e ciclones que geram tempestades de raios e trovões e por sua vez se abatem de novo sobre as montanhas em nevoeiros e enxurradas de neve infiltrando-se até ao seu âmago nos lençóis friáticos que afloram sob os ribeiros que alimentam os rios que caem em cascatas e finalmente vertem essa imensidão de água para mares e oceanos onde tudo recomeça de forma imparável desde há mais de três biliões de anos, apenas este ciclo diário, é suficiente para revelar o que há de inexorável na vida e o sentido inglório do que o Homem lhe tenta contrapor. A busca de estados consolidados da matéria, do conhecimento ou do sentido, é vã neste confronto. Neste contexto, impermeabilizar leitos de cheia, mesmo naqueles rios com margens que julgamos educadas desde que há memória, construir cada vez mais ruas, estradas, auto-estradas e jardins de cimento que servem casas de habitação, casas de férias, casas de especulação que depois são demolidas e o entulho esquecido sobre os solos, é não considerar que a vida há-de jorrar sempre nem que isso acarrete a morte. A água não é um líquido inerte e inodoro, não é algo que se faça juntando duas partes de hidrogénio com uma de oxigénio. A água é o protagonista. A água inteira não é definível pois observá-la é observarmo-nos. O Homem, ao intervir na terra através da agricultura intensiva torna o solo exangue; as formas de rega que levam os nutrientes, os estimulantes químicos que desregulam os tempos de recuperação, a martirização das camadas superficiais através dos sulcos violentos da maquinaria agrícola, tudo isto para obter rentabilidades a curto prazo que não se compadecem com a arritmia das estações nem com a variabilidade dos ritmos meteorológicos e geológicos; como se a terra tivesse tempos de vida humanos. Mas o ciclo da terra é água.
Choosing the place
Conhecia a propriedade há mais de dez anos e tinha na memória dois locais onde poderia ser adequado criar condições para a fixação de pessoas. Tendo esta propriedade uma história de ocupação, os locais indicados para esta finalidade já dispunham de pre-existências de habitação e de captação de água nos pontos escolhidos pela sabedoria ancestral, hoje esquecida e degradada tal como essas construções.
Bench
Numa visita realizada em Setembro de 2012 procurei aferir de forma mais concreta sobre as potencialidades de cada um desses locais para servir este propósito. A zona da Barroca da Fonte, apesar de inicialmente alimentar grandes expectativas revelou-se, com uma análise detalhada das condições das ribeiras, nascentes e poços, de acentuada alternância entre meses de seca e de cheia. No vale onde se encontra localizada a pre-existência, apesar de ser alimentado por dois regatos que, por sua vez, são alimentados por pelo menos outros quatro, verificou-se que um poço que normalmente nunca ficava seco se encontrava nesse ano sem água, enquanto que uma charca em estado de abandono ainda continha água, juncos em profusão e alguns sapos. Marcas de depressão entre as oliveiras assinalavam a ocorrência de enxurradas. Pela largura do vale, haveria menor probabilidade de encontrar o nível friático que alimentasse uma charca de forma satisfatória. O Vale Verde é um pequeno vale permanentemente verdejante, como o nome indicia. Apesar de ser definido por apenas uma ribeira esta é farta e alimenta, através de uma canalização no subsolo, a aldeia do Salgueiral. A pre-existência em si é muito mais pequena do que a da Barroca da Fonte mas adaptada a uma vida quase auto-suficiente de uma pessoa ou de um casal. Foi este o lugar escolhido (como se fosse) para viver.
Bench
O banco é antigo e de uma simplicidade pungente. Não era suficientemente nobre para ser recuperado e foi preterido.
Knowledge of the dogs
Num churrasco em casa do Vasco, decorriam ali obras e aquele banco iria fora. Era já noite adiantada coloquei-o dentro do carro, ocupou do vidro dianteiro à porta traseira do Toyota, tive de o ir a segurar o caminho todo para não bater à frente e levei-o para o Vale Verde. Coloquei-o junto ao regato e sentei-me.
Knowledge of the dogs
Cem metros antes da casa encontra-se uma propriedade pertencente a José Henriques com cerca de dois hectares. A guardá-la estão dois cães, um arraçado de S. Bernardo e o outro com pelo de Fila de S. Miguel. Chamo-lhes Bernardo e Miguel.
Knowledge of the briars
Ao primeiro chamam Rex por ser grande e chamam Polícia ao segundo por ser afilado. Afinal o Bernardo tem certidão e foi baptizado Panda e o Miguel morreu de indisposição. "Felizmente que nem todos os cães são Bernardo."
Knowledge of the briars
As raízes das silvas, quando cortadas transversalmente, têm no âmago uma autêntica espinal medula de borracha revestida de carne animal que sangra. A sua pele é a de um réptil, resistente mas sedosa.
Cross country
Têm a idade das plantas e no dia em que Lisboa fôr abandonada elas retornarão. No entanto, quando o Homem age impõe-se. Aos poucos elas vão-se manifestando menos até que se tornam submissas. Desde cem metros a jusante até trezentos para montante o regato é coberto de silvas, apenas sendo pressentido. Estendem-se desde quatro a doze metros para cada lado, com mais de três metros de altura quando em campo aberto mas atingindo os oito ou mais quando sobem pelos salgueiros, figueiras e oliveiras, engolindo-as. Durante a desmatação foram encontradas uma laranjeira implantada num tronco de azinheira morta, um pessegueiro, figueiras e funcho selvagem, sobreviventes do manto sufocante daquela infestante. À frente da habitação foram transformados em estilha mais de mil metros cúbicos de silvas com recurso a uma moto-roçadora. O regato teve de ser reaberto com uma enxada e um ancinho pois ficou literalmente entupido. Depois veio o Carlos no tractor FIAT com um escarificador para lavrar o terreno, tinha de fazer aflorar as raízes das silvas. Teve de ter o cuidado de não magoar as margens do regato, apesar de ali se encontrarem inúmeras raízes. Estas seriam mais tarde arrancadas com uma picareta e uma enxada, bem como todas as restantes raízes que escapam sempre a estas intervenções e que continuarão a manifestar-se durante anos.
Cross country
Esta reflexão não se pretende um manual de instruções para desmatar 150 hectares de olival nem uma sequela de Anita e a moto-roçadora. Quando Siegfried Gideon escreveu sobre tractores, matadouros e fogões ou Roland Barthes sobre a DS ou Reyner Banham sobre ar condicionado e carrinhas de gelados, reflectiram sobre o engenho tecnológico e os seus laços com a cultura.
Building the pond
Uma moto-roçadora (trimmer em inglês) é um caso de estudo pedagógico e desafiador para o designer. Configura um equipamento onde a forma deriva estritamente da função e que se distingue do material bélico pelo grafismo das superfícies, coloridas para visibilidade ao contrário das características camuflagens dos seus congéneres militares. É, no entanto, e apesar da sua função exterminadora, uma máquina esguia e elegante, com um disco vistoso quando em movimento que emite um silvo distintivo. O equilíbrio da máquina, do corpo e do binómio máquina-corpo conferem ao seu manuseamento a expressão de uma Arte performativa cyber-punk. É um contexto estimulante para a intervenção do designer mas para tal tem de experimentar. O mato é o que existe. Os vegetais domesticados que consumimos têm de ser constantemente protegidos daquelas espécies mais resistentes. Em Portugal, o seu desbaste representa uma parcela significativa do investimento anual de quem vive da terra. Olivais, montados de sobro e de azinho, pinhais, centenas de milhar de hectares têm de ser limpos regularmente para não soçobrarem. Quando o não são durante alguns anos o mato que se produz ganha dimensões e vigor selváticos. O mato são giestas, estevas, urzes, silvas, tojo, alfazema e outras centenas de espécies arbustivas com nomes também eles escondidos no mato. Podem ainda ser azinheiras, pinheiros, cedros, acácias ou qualquer outra árvore, se nascida espontaneamente fora da estratégia do Homem para aquele local. Os instrumentos para o eliminar são as grades diversas puxadas por tractores, as moto-serras e as moto-roçadoras. Estas, são uma espécie de motor fora-de-borda mas no qual a hélice, em lugar de ser imersa na água, é projectada contra o mato. As moto-roçadoras encontram-se desde os 13 cc com 4 kg de peso até mais de 50 cc com 9 kg. Na sua cabeça podem ser acoplados fios de nylon para cortar relva e pequenas plantas ou discos metálicos de formas e pontas variadas para arbustos e mesmo pequenas árvores. A actividade de cortar mato é intensa em termos de processamento cerebral. Por minuto são fixadas milhares de plantas e pedras, escolhidas aquelas a enfrentar e a evitar, decidido o tipo de golpe a executar, adaptada a rotação através do acelerador, desferido o golpe e, tal como Adriano, fazê-lo a pensar no acto seguinte. O estímulo dos sentidos não é despiciente. Os odores que se desprendem de uma planta quando lhe é ceifada a vida, soltando todas as suas feromonas natais, substituem a visão pelo olfacto. A sugestão de um óleo de bronzear ou de um gel de banho revelam-nos instantaneamente as essências utilizadas na confecção de diversos produtos de consumo massificado. Afinal, tudo vem do mato. Cada árvore a limpar tem um contexto de entrelaçamento vegetal que requer estratégias de abordagem diferentes. Sempre que haja troncos que exijam um trabalho de várias investidas persistentes, há que primeiramente limpar o mato que se entrepõe; este, pode ser desfeito com uma conjugação de golpes de toda uma cultura de golpes específica desta actividade. A adaptação da máquina ao corpo é fundamental para se obter uma boa performance. O colete ou arnês, com um mosquetão onde é pendurada a moto-roçadora, deve ser justo e confortável. A máquina é fixada à altura da cintura pelo seu centro de gravidade, sendo facilmente balanceada. Os punhos de direcção são ajustáveis e devem sê-lo de forma a permitirem uma manobrabilidade com os braços quase esticados. O domínio do acelerador é a chave desta intimidade mas é algo que se ganha com cada máquina. Nas máquinas com motor a quatro tempos de maior torque, como nas Honda ou em algumas Husqvarna, a perca de rotação quando do contacto com os ramos é inferior mas também o é o seu poder de recuperação, pois são menos rotativas do que aquelas a dois tempos. Nas de dois tempos, as mais comuns, atinge-se mais rapidamente uma rotação elevada mas que se perde com maior facilidade quando do choque contra os obstáculos mais resistentes. O importante não é ter o rotor sempre acelerado mas em aceleração quando contacta com a planta; como uma máquina não pode estar em constante aceleração o timing entre o aumento de rotação e o golpe deve ser sincronizado. Para cortes simples de relva e pequenas plantas, com recurso ao fio de nylon, procede-se a um movimento de ancas circular e balanceado, tirando partido do peso equilibrado da máquina com os ombros. Já quando se trata de mato heterogéneo, grosso e denso, com recurso a discos metálicos e motores mais potentes, o movimento de cima para baixo, a malhar no mato desfazendo-o, torna-se muitas vezes necessário pois não se vislumbra ou não se alcança o tronco do arbusto para que o acto final de o decepar seja incisivo. No entanto, com as giestas tal não é possível pois as suas extremidades longas, fibrosas e abundantes entrelaçam-se no disco fazendo-o parar. Quando atingem diâmetros de quatro metros e alturas superiores a dois, com mais de uma dúzia de cepas unidas ao centro junto ao solo, tornam-se num arbusto inesperadamente complicado de eliminar. As silvas homogéneas, sem adição de outros arbustos, são o deleite dos operadores iniciados. As máquinas a dois tempos com discos de duas ou três pontas são as mais indicadas pois as silvas são densas mas frágeis. Podem encontrar-se nos regatos inóspitos, cobrindo-os completamente, atingindo áreas de centenas de metros quadrados com alturas superiores a três metros. A acção a empreender é a trituração, sem contemplações, pois as silvas mesmo sem vida continuam de pé. Ergue-se a moto-roçadora em peso e desferem-se golpes verticais sobre o monstro. Aqui, o disco passa a ser um ponto de fusão em sucessivos piques de aceleração, desfazendo aquilo em que toca e saindo do buraco gerado com curvas e contra-curvas ascendentes, não vá o braço da máquina ficar enredado na negritude que gera. Por vezes um tentáculo grosso, guerreiro e pleno de espinhos despega-se do alto e desaba com vida sobre o ombro, roçando a orelha e agarrando-se finalmente nas costas. A base das silvas deve ser a última parte a ser desfeita, deixando no final apenas um manto de estilha sobre o solo; as silvas são nuvens. No início da jornada verificam-se equipamento e apetrechos, com particular atenção para a cabeça da moto-roçadora. Os discos de metal devem ser afiados com uma rebarbadora, o que não impede a sua substituição regular. O mato com mais de um ano de idade já pode ser inusitadamente desenvolvido e abundante, produzindo-se muitos estilhaços. Como o disco gira no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, convém executar da esquerda para a direita aqueles golpes susceptíveis de partirem os ramos em bocados, como com as madeiras duras que geram autênticos projécteis e as madeiras secas, menos agressivas. Não é raro existirem pedras a meia altura dentro dos arbustos, que são disparadas pela lâmina em direcções inesperadas. A protecção indispensável a usar são os óculos ou viseiras. Toda a outra parafernália, botas, caneleiras, roupa grossa e luvas tem a haver com o tipo de estilhaços esperados no corte e com a ousadia do operador. Sempre que se trabalhe sob árvores convém proteger a cabeça pois o olhar encontra-se focado no chão. Na desmatação profissional as normas de protecção são naturalmente exigentes. As próprias moto-roçadoras vêm equipadas com uma protecção na rectaguarda do disco. No entanto, estes guarda-lâminas limitam a manobrabilidade do equipamento, nomeadamente no corte de frente para trás, apesar de protegerem o disco contra o embate em pedras ou troncos mais duros. É inevitável atingir pedras, principalmente quando se procura um corte rente, mas a sua insistência deteriora a lâmina e provoca danos na cabeça da moto-roçadora. A avaria, nestes equipamentos, tem de ser considerada uma vicissitude de um trabalho de elevado desgaste mecânico. As avarias são habituais mas não são motivo para parar com a laboração. O operador de moto-roçadoras transporta sempre as ferramentas necessárias para consertar o seu equipamento no local, qual hospital de campanha. Um parafuso do interior da cabeça que se desaperta, o acelerador que cola, a vela suja pelo pó, são razões para intervenções. Existem moto-roçadoras com motor eléctrico mas o habitual é o motor a combustão. Por isso, um garrafão de combustível é transportado para o local de desmate que normalmente se encontra a alguns quilómetros por estradas de terra, pois cada depósito não garante mais de duas horas de trabalho. No caso dos motores a dois tempos é utilizada gasolina com adição de óleo para motores a dois tempos. A ignição é invariavelmente feita puxando um kicker, pois a sua portabilidade não deixa espaço para um motor de arranque. Video
Building the pond
Hoje continuarei a sachar o buraco que receberá uma fitocharca. Coloco a terra e as pedras extraídas na parte superior da futura horta, formando uma pequena represa contra as enchentes da ribeira.
Removing the rubble
Questiono-me sobre as obras que implicaram grandes movimentos telúricos, onde terão os seus construtores colocado o material que retiraram? Montanhas terão nascido por causa da construção de vazios. A delimitação da charca foi desenhada no próprio terreno, inicialmente um triângulo isósceles que se transformou num rim assimétrico adossado à pendente e virando-se para o regato num acesso suave. Quanto mais irregular seja o desenho de uma charca, em planta e em corte, melhor. As suas reentrâncias propiciam a apropriação por parte de anfíbios (salamandras, sapos e rãs nos interstícios), répteis (cobras e lagartos entre as pedras), pequenos mamíferos (ouriços cacheiros e morcegos arborícolas dentro de troncos ocos) e invertebrados e respectivos ovos (insectos sob vegetação diversa). A vida gera vida, pelo que este estímulo seria inicial e, ultrapassada a inércia, seria auto-sustentado. Iniciei então a marcação da localização das charcas. É preferível construir várias pequenas do que uma grande por várias razões. Uma delas prende-se com os seus provavelmente diferentes ciclos de enchimento e esvaziamento que se adaptam aos por sua vez diferentes ciclos dos diversos animais e vegetais que albergam. Outra tem a haver com a possibilidade de migração de anfíbios entre charcas, estimulando a reprodução por várias famílias. Após um estudo sistemático dos terrenos em termos históricos, conclui-se que as características depauperadas de muitos deles não são endógenas, tendo sido deteriorados por razões antropogénicas. Nestes casos, as charcas revelam-se importantes para revitalizar os ecossistemas em situações de cansaço e esterilidade do terreno. A charca foi concluída em Junho de 2013 com recurso a uma retro-escavadora. O nível friático foi atingido após terra rota, quando se encontrou terra argilosa. Nas suas margens foram introduzidos juncos para fixar a terra. Para o seu interior foram trazidas algas de uma charca próxima. Poucos dias após a introdução destas plantas a água barrenta tornou-se límpida. Durante a escavação foi acidentalmente cortado o cano de água de ligação ao Salgueiral. A necessidade de introdução de duas uniões para remendo do dano criou a oportunidade para deixar uma torneira com serviço de uma água óptima para beber.
Removing the rubble
Quando o edifício foi conhecido parecia um enorme manjericão com silvas a emergirem do seu interior sem cobertura. Era impossível entrar.
One house
A primeira desmatação, muito ligeira e apenas com uma enxada, foi feita em Abril de 2012 para conseguir aceder ao seu interior e confirmando que, para além das silvas, existia muito entulho acumulado. Em Setembro foi utilizada uma moto-roçadora para limpar a maior parte das silvas superficiais do interior, verificando que tinha existido uma parede, agora ruína, que dividia o espaço em dois. A não comunicação entre esses dois espaços sugeriu que servissem para habitação e loja. Apenas a partir de Maio de 2013, após uma nova limpeza com moto-roçadora, se iniciou a remoção do entulho. Este consistia em pedras da parede desabada, terra do seu ligante, traves de madeira da estrutura do telhado, telhas, raízes profundas de silvas e mais terra trazida pelo vento. O trabalho foi intercalado entre a escolha de telhas boas, a remoção de pedras para o exterior seleccionando o xisto para posterior utilização e o transporte das restantes pedras, madeiras, terra e telhas partidas para um vau dentro da propriedade. Tudo isto teve de ser feito com luvas pois as silvas nunca foram completamente eliminadas. Video
One house
Tudo de novo sobre a Terra? Parece-me que sim pois eu não domino o tempo e apenas vejo o instante sempre diferente.
Collection and application of clay
É um dia frio, daquele frio revigorante que nos acorda. A erva entornada pelo orvalho deixa entrever as lesmas sem casa. A luz emanada pelo sol ainda por detrás da colina projecta-se para o céu de um azul diurno apascentando nuvens dispersas. Dormi sob um telheiro na ruína que me encontro a recuperar, resolvido na última meia-hora do crepúsculo do dia anterior com recurso a dois troncos de choupo e ramagem remanescente da poda das oliveiras. Nada é tão pedagógico para conhecer o sentido primeiro de habitar como o confrontarmo-nos com a necessidade de abrigo em meio natural, sem possibilidade de recurso à super-protecção urbana. A construção desta casa seguirá o seguinte método: primeiro fazer tudo, depois fazer o resto. Porque nada nunca está concluído e quantas vezes o intelecto se opõe à acção. Depois de concretizar a decisão restará sempre uma vida para manter. A pre-existência consiste num antigo palheiro ou curral quadrado com sete metros de lado a menos de um quilómetro da casa principal. Já não dispõe de cobertura mas mantém as paredes exteriores de calhau rolado travadas com xisto ainda estáveis, apesar de exibirem algumas fissuras. Uma parede interior é ruína. Tem duas portas e não tem janelas. Encontra-se virada a sudoeste, adossada a um terreno com um declive de cerca de 14%. Esta inclinação leva o edifício a desenvolver-se em dois meios pisos com uma diferença de cota de 50 cm entre eles. A vinte metros passa um regato com um fluxo de água ininterrupto, tendo sido registado cerca de 1 litro por segundo no início do mês de Junho. A uma cota superior, à beira da estrada que circunda o monte, encontra-se uma charca com cerca de dez metros por dois com dois de profundidade. Isto não significa apenas 40.000 litros quando cheia, pois as charcas enchem à medida que esvaziam. Pretende-se dotar este lugar com autonomia elementar de água, de alimento e de electricidade. A água provirá da charca superior. Será escavada uma outra charca que irrigará uma horta em sistema de permacultura (cama elevada), que providenciará hortícolas sazonais. Um aerogerador construído com recurso a peças de ferro-velho alimentará duas lâmpadas e uma tomada eléctrica. No centro da casa uma lareira servirá para aquecimento do espaço e da comida. Os pilares serão escoras de cofrar lages, extensíveis em ferro. As vigas serão cruzetas e travessas de andaime. Toda esta estrutura será amovível, não sendo chumbada ao solo mas fixada na superfície do terreno. Para o pavimento recorrer-se-á a mosaicos encontrados num despejo de entulho, a lages de xisto do local e a argila do fundo da charca escavada. Esta argila também servirá como substituto do cimento para recuperar partes da parede e para as fundações das fixações dos pilares. A cobertura será em chapa ondulada de zinco no exterior e onduline no interior, tudo materiais remanescentes de anteriores edifícios da herdade. Serão ainda fixados por baixo desta cobertura sacos isotérmicos de embalagens de vinho de 5 litros recolhidas nos cafés e restaurantes das redondezas.
Collection and application of clay
O barro foi extraído da charca construída. Inicialmente recorreu-se a uma telha para o transportar para a casa. Depois encontrou-se uma panela de alumínio numa arrecadação, com maior capacidade mas exigindo maior esforço para transportar.
Building the structure
No primeiro teste foi fixado um grampo ao solo atrás da casa pois já havia a ideia de ancorar a estrutura com cabos de aço; ao fim de dois dias de secagem revelou-se firme. Depois procedeu-se a uma experiência de pavimento de barro que seria posteriormente pintado com óleo de linhaça. Esta experiência nunca teve seguimento. Foi também fixado um mosaico de pavimento com sucesso. Por fim, foram recuperados três pontos das paredes que se encontravam degradados. Foram reconstruídas com calhau rolado travado com xisto e unido com barro, tal como tinham sido originalmente executadas.
Building the structure
Estas paredes em godo são extremamente frágeis. Apesar de serem travadas de onde em onde, especialmente nos cunhais com xisto e sendo ligadas com argila, optou-se por não lhes sobrepor o peso da estrutura.
Building the cover
Assim, a estrutura não toca na pre-existência. A estrutura é reversível e a sua ancoragem ao solo é feita por pequenas peças metálicas fixadas com argila da charca contígua. As escoras extensíveis foram compradas a peso na sucata e as cruzetas e travessas de andaime estavam nas traseiras da drogaria e foram acordadas por pouco dinheiro. A estrutura é fixada com cabos de aço e corda da roupa fixados por serra-cabos e anilhas. Os cabos de aço foram encontrados no ferro velho do Paulo, que tinha ido trabalhar para a França e tinha deixado a sucata sem dono. Os artefactos de ferro para fixar os pilares ao solo e para os ligar às vigas no topo foram produzidos na Serralharia de Arte do Hugo São-Pedro em meia manhã e meia tarde: 16 grampos para pilares, 8 grampos para cabos de aço e 48 grampos para vigas. Tudo isto será consolidado ao longo do tempo com raízes de plantas. São pilares vegetais, que pressupõem um crescimento e uma fixação orgânica. Terra, pedras, água, areia, água, pedras, areia, terra, pedras, terra, água... no momento em que se encontrar estável começará a envelhecer.
Building the cover
O nível inferior da cobertura é feito com telas de onduline recentemente retiradas do telhado do lagar da propriedade. A sua fixação à estrutura é feita com braçadeiras de plástico.
Building the pavement
A onduline é um material fenólico impregnado de alcatrão. Era usado como sub-telha. Não sei porque deixaram de o usar, gosto imenso do cheiro. A pala de sessenta cm para a frente aconteceu por engano, era para ser de apenas trinta. As lonas dos reboques de camião encontram-se em mercado de usados para cobrir os fardos de palha no campo. Seria ideal para colocar sobre a onduline, conferindo-lhe impermeabilização.
Building the pavement
Um camião de entulho de obra é despejado na margem de uma estrada secundária periurbana próxima de nós. Por entre os cacos conseguimos recuperar mais de trezentos mosaicos de pavimento ainda com a sua forma quadrada preservada mas com cimento agarrado na sua face inferior. Tinham obviamente sido arrancados de um páteo qualquer. Depois de coleccionados verifica-se que existem cinco padrões distintos. São sessenta e cinco mosaicos amarelo custarda planos, cinquenta e dois vermelho vinho planos, cento e um com um ponto no centro, quarenta e nove com uma linha transversal ornamentada e trinta e seis com uma linha diagonal simples.
Building the wind turbine
Os mosaicos vinham mesmo a calhar mas não chegam para o chão todo. A reflexão desenvolvida para aferir da zona a cobrir e da disposição dos mosaicos vis-a-vis a sua disponibilidade e os seus padrões inverteu o processo de desenho/construção para o de disponibilidade/desenho e renovou o campo das possibilidades. Em casa, no espaço onde se faz o fogo, o chão é em terra que cobrimos de areão no ano passado. O Zé Gato tinha aproveitado um atrelado que lhe tinham emprestado para ir buscar uma carrada a um sítio que ele sabia. Depois de afundar o solo, colocou-se uma camada de 4 cm de areão e nivelou-se com um ancinho. Foi polvilhada cal nas arestas numa tentativa infrutífera para contrariar a tenacidade e resiliência das silvas. Os mosaicos de pavimento foram colocados inspirados no desenho previamente executado.
Building the wind turbine
O primeiro elemento a surgir foi um dínamo de bicicleta de 6V. Foi oferecido pelo mecânico de bicicletas e motocicletas de Vila Velha de Ródão.
Building the raised bed
Foi então desmontada uma bicicleta sem uso para retirar a forquilha e a roda traseira, que gira melhor do que a da frente pois tem um rolamento, para servir de hélice. Este conjunto foi pensado para alimentar uma ou mais baterias de 6V das lanternas dos chineses. Seria ràpidamente montada uma fonte de alimentação para duas lâmpadas. Poucos dias depois, no tasco do Coxerro, contei o projecto ao Zé Gato que se prontificou a arranjar um sistema mais potente. Recorreria a uma polis de máquina de lavar a roupa para multiplicar as rotações e a um alternador de tractor que carregaria baterias de 12V. Gostei do seu entusiasmo. Para mostrar que eu também estava motivado construí uma hélice de três pás com 160 cm de diâmetro recorrendo a um cano de PVC velho e a um disco de 42 dentes para moto-roçadora usado. Sendo o número de dentes divisível por 3, seria um suporte equilibrado para as pás. Uma semana depois não havia nada da parte do Zé Gato. A mesma coisa passado um mês. Entretanto, eu já tinha construído uma estrutura com uma cauda e colocado a eólica a girar no cimo de um cano de seis metros. Só lhe faltava produzir electricidade. Video
Building the raised bed
O objectivo de alguma autonomia alimentar implicou o cultivo da terra. A opção recaíu sobre a construção de uma cama elevada em sistema de permacultura para hortícolas sazonais.
Replanting
Começou por se escolher o local para a cama. Ficaria um pouco abaixo da nova charca para poder ser irrigada por ela. A qualidade da terra não era muito importante pois esta iria ser criada. No entanto, a proximidade ao regato seria importante para a manter húmida. Seguidamente foi cavado um rego de seis metros por 60 cm com 30 cm de profundidade. Nele foram primeiro introduzidos troncos de madeira já seca mas ainda não em decomposição. Depois, em sequências intuitivas, camadas de terra vegetal, galhos pequenos e composto, com regas irregulares. Tal como se estivesse a ser ateada uma fogueira, o composto serviria de acendalha e a água de fole de ar. Esta construção foi coberta com um lençol de algodão e um cartão, para evitar que as sementes remanescentes germinassem, aumentando a concentração de matéria orgânica vegetal. Por fim, uma última camada de terra vegetal e composto. Três meses depois, seria nesta camada que se procederia à introdução das plantas a cultivar.
Replanting
Após as silvas terem sido retiradas foram introduzidas outras plantas e tratadas com deferência, de modo a conseguirem encontrar o seu lugar naquele vale perigoso.
Method
Outras plantas infestantes pareciam ser indicadas para o confronto. Foram assim transplantados dezenas de juncos com raíz e terra para as margens do regato. Estes juncos vieram da ribeira do Açafal, a três quilómetros dali, do mesmo local onde em 2011 tinham sido extraídos para construir uma cabana para gansos sobre uma jangada. Dois tipos de hortelã, poejo e coentros para, juntamente com o funcho já existente, aromatizarem aquela zona mais fresca. Foram ainda ali introduzidas baldroegas. Estas transplantações decorreram como se de órgãos humanos se tratassem, dentro de alguidares com água ou sacos de plástico, com a mínima demora no transporte e imediatamente regadas após a sua reinserção no meio para reactivar as suas funções vitais. A partir de um ou dois metros de distância do regato pensou-se introduzir uma outra infestante não espinhosa e endógena. Graça Aragão, dona da Quinta do Açafal, a braços com uma infestação de grama em frente a sua casa, disponibilizou toda aquela que eu desejasse transplantar. Mas as histórias coleccionadas sobre a agressividade desta planta que se fixa em rizoma demoveram-me da escolha. Uma delas referia que um moto-cultivador de 14 cv não tinha conseguido penetrar um campo de grama. Escolheu-se então uma trepadeira de folhas bem recortadas que também se desenvolve na horizontal, comum nos jardins da zona, nomeadamente no jardim da casa da Tojeira. Os pés ali introduzidos foram cedidos pelo Tó Marques, construtor civil de Vila Velha de Ródão. Costuma ir depois de jantar às bombas de gasolina beber um café e uma bagaceira juntamente com a mulher, a filha e os cães. Estes pés requereram regas diárias nos primeiros dias após a sua introdução e mais espaçadas até às primeiras chuvas. Alguns sucumbiram mas outros vingaram sendo o seu crescimento agora imparável. Chegará a altura em que terá de ser controlada, tal como as silvas mas de forma menos trabalhosa. Na parte superior do terreno, a mais de seis metros do regato, será introduzida uma forragem vitalícia. Uma mistura de azevém e flores do campo manterá o terreno sempre cultivado e providenciará alimento para o gado. Este pasto será semeado no início de Setembro.
Method
Não existiu qualquer desenho rigoroso porque as paredes, apesar de configurarem um quadrado aproximado de 740 x 780 cm pelo exterior, eram irregulares nos três eixos.
Cada passo foi pensado mas nunca dois passos depois. O erro foi assimilado e integrado na obra. Em lugar de projectar e depois contabilizar o material necessário para executar o projecto, aqui partiu-se das quantidades disponíveis e compôs-se para aqueles materiais. Por outro lado, chego a um local desarrumado e deixo que os materiais me sugiram aplicações. Tenho uma panóplia prévia de necessidades mas como as soluções se encontram em aberto as próprias necessidades podem ser reconfiguradas.
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hélio fluorescente invólucro em amido de milho dínamo com reóstato ignitor eólica baraço de sisal |
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célula solar bóia emissor led lastro cabo âncora |
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